por DaBoa Brasil | fev 10, 2026 | Psicodélicos, Saúde
Um estudo pré-clínico, publicado na revista Pharmacological Research, descobriu que a administração regular de doses baixas de psilocibina melhorou a saúde metabólica em ratos com obesidade, diabetes tipo 2 e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica.
Pesquisadores de duas universidades italianas, juntamente com instituições de toda a Europa e dos Estados Unidos, alimentaram ratos com uma dieta rica em açúcar e gordura. Os ratos receberam uma baixa dose (0,05 miligramas por kg de peso corporal) de psilocibina durante 12 semanas, período no qual os pesquisadores observaram redução no ganho de peso, melhora na sensibilidade à insulina, normalização dos níveis de glicose no sangue e regressão da esteatose hepática (gordura no fígado). As mudanças ocorreram sem redução na ingestão de alimentos e sem efeitos detectáveis no sistema nervoso central.
Utilizando análises moleculares e em nível de tecido, os pesquisadores descobriram que a psilocibina reduziu o acúmulo de gorduras “tóxicas” prejudiciais, restaurou as vias de sinalização da insulina e produziu melhorias visíveis na estrutura do fígado e em marcadores metabólicos importantes.
“Esses dados desafiam a ideia de que o potencial terapêutico da psilocibina esteja necessariamente ligado à experiência psicodélica”, disse Sara De Martin, autora correspondente do estudo e professora do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade de Pádua. “Em baixas doses crônicas, a psilocibina atua como um modulador periférico do metabolismo, particularmente no fígado, por meio de uma via serotoninérgica específica”.
Utilizando células de tecido humano para validar as descobertas, examinou-se o papel de três receptores de serotonina (5-HT2A, 5-HT2B e 5-HT2C). Os dados mostraram que esses benefícios metabólicos não estavam ligados ao receptor 5-HT2A, comumente encontrado no cérebro, intestino e sistema cardiovascular, e que produz a experiência psicodélica associada à psilocibina, mas resultavam do bloqueio do receptor 5-HT2B pela molécula, localizado no fígado e envolvido na regulação do desenvolvimento, crescimento e função cardíaca, entre outras funções.
O estudo também demonstrou benefícios do tratamento com psilocibina, como melhora da força e função muscular, além de aumento da sensibilidade à leptina, um hormônio envolvido na regulação do equilíbrio energético e do metabolismo muscular. Adicionalmente, a análise do tecido pancreático evidenciou que a psilocibina auxilia na reparação das células beta produtoras de insulina danificadas pela dieta rica em gordura e açúcar.
“Em resumo, demonstramos que os efeitos metabólicos benéficos mediados pelo receptor 5-HT2BR, induzidos pela psilocibina, estão correlacionados a uma remodelação do lipidoma hepático e acompanhados pela preservação da força e função muscular em camundongos”, afirmaram os autores.
“Considerando todos esses efeitos, a psilocibina se apresenta como uma potencial candidata a medicamento que preserva a massa muscular e é segura para o sistema nervoso central e o coração, para o tratamento da doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, obesidade e diabetes mellitus tipo 2”.
Embora essas descobertas se limitem a modelos animais, o estudo sugere que a psilocibina pode ter aplicações além da saúde mental.
Referência de texto: Leafie
por DaBoa Brasil | jan 14, 2026 | Ciências e tecnologia, Psicodélicos
A hipótese do “macaco chapado”, associada a Terence McKenna, ressurgiu esta semana após um artigo na DoubleBlind que reavivou o argumento — algo que soava como um mito na década de 1990, mas que agora está sendo discutido, pelo menos como uma possibilidade, à luz dos avanços em neuroplasticidade, epigenética e genômica fúngica. Mas será que estamos lidando com uma história convincente que levanta questões científicas, ou com um atalho explicativo carente de evidências diretas?
A “teoria do macaco chapado” nunca foi uma teoria em sentido estrito. É, no máximo, uma hipótese: postula que o contato repetido com cogumelos psilocibinos durante o Pleistoceno influenciou a cognição humana, fomentando habilidades como reconhecimento de padrões, criatividade e linguagem. Seu significado cultural — e sua fragilidade científica — representa um catalisador químico para um processo multifatorial: a encefalização e o surgimento de comportamentos simbólicos, que a antropologia e a biologia evolutiva explicam por meio de uma combinação de pressões e mudanças (dieta, cooperação, tecnologia, fogo, ecologia).
Em um artigo publicado na DoubleBlind, Dennis McKenna, irmão de Terence e etnofarmacologista, argumenta que o panorama científico mudou o suficiente para que a hipótese deixe de ser apenas uma ideia atraente. O objetivo não é “provar” que um fungo criou os humanos, mas sim discutir como as evidências acumuladas sobre neuroplasticidade sugerem que o cérebro adulto pode se reorganizar mais do que se pensava anteriormente.
A epigenética, por sua vez, abriu o debate sobre como certos impactos ambientais (dieta, estresse, exposição a substâncias químicas) podem modular a expressão gênica e, em alguns casos, deixar marcas transgeracionais. É nesse contexto que vale a pena questionar se uma substância como a psilocibina, que induz repetidas alterações neuroadaptativas em indivíduos e comunidades, poderia ter influenciado — direta ou indiretamente — trajetórias culturais e biológicas.
Alguns chegam a considerar razoável que nossos ancestrais “provassem” cogumelos em seu ambiente, embora reconheçam que não há evidências arqueológicas diretas do consumo de psilocibina nos primeiros Homo. Os cogumelos são tecidos moles que raramente fossilizam e, diferentemente de outras drogas de origem vegetal, não deixam resíduos visíveis em cerâmica ou ossos. Nessa discussão, o que parece “novo” é o acúmulo de evidências circunstanciais, como reconstruções paleoambientais de pastagens e grandes herbívoros que produziam esterco, onde o cogumelo poderia ter prosperado. No entanto, esse enigma proposto permanece incompleto.
Entretanto, a ciência avança, fornecendo dados claros sobre cogumelos e a biologia molecular dos psicodélicos. Em 2024, uma revisão publicada pela revista Lilloa (Fundação Miguel Lillo, Argentina) explorou, sob uma perspectiva multidisciplinar, como a psilocibina e a psilocina podem desencadear efeitos neurológicos e psicológicos significativos, colocando a hipótese em diálogo com questões evolutivas (adaptações, disponibilidade de alimentos, sucesso reprodutivo e sobrevivência).
Em paralelo, estudos genômicos do gênero Psilocybe ajudaram a refinar a história evolutiva dos cogumelos psilocibinos, revelando quando e como surgiu a capacidade de produzir psilocibina. Embora isso não responda se os hominídeos os consumiam, certamente desfaz simplificações excessivas.
A onda atual também inclui pesquisas em andamento que ainda não foram revisadas por pares. Uma pré-impressão publicada no Research Square mapeou genes “responsivos” a psicodélicos usando estudos transcriptômicos e os cruzou com atlas do cérebro humano. Entre suas descobertas, relata um enriquecimento desses genes em neurônios piramidais corticais e uma sobrerrepresentação de genes associados a “regiões aceleradas” na evolução humana. Essa é uma notícia tentadora para aqueles que buscam uma ligação entre psicodélicos e evolução, mas é importante lembrar que se trata de uma evidência preliminar, útil para orientar hipóteses, mas que não encerra o debate.
A persistência da “teoria do macaco chapado” pode revelar tanto sobre nós quanto sobre nossos ancestrais. Em tempos de ressurgimento psicodélico, a tentação de encontrar uma única origem para a consciência funciona como uma genealogia química da humanidade. Mas se o novo ciclo de pesquisas demonstra algo, é que a contribuição mais interessante dessa hipótese pode não ser “estar certa”, mas sim nos forçar a formular perguntas melhores sobre meio ambiente, cultura, cérebro e evolução.
Referência de texto: Cáñamo
por DaBoa Brasil | dez 23, 2025 | Curiosidades, História, Psicodélicos
A história do Papai Noel não é uma criação da Coca-Cola, nem de São Nicolau ou uma história infantil, uma teoria propõe que ela existe por causa de um pequeno ser vivo com grandes poderes: o cogumelo Amanita muscaria, também conhecido como agário-das-moscas ou mata-moscas.
Robert Gordon Wasson, um etnomicologista, e o antropólogo John A. Rush investigaram fungos, a perspectiva religiosa e ritualística e também suas propriedades psicotrópicas. Em suas pesquisas, ambos chegaram à conclusão de que o cogumelo Amanita muscaria está intimamente relacionado ao imaginário natalino.
A aparência do cogumelo Amanita muscaria é marcante e característica, com seu chapéu vermelho e pontos brancos. Ele cresce no solo perto de árvores como bétula e pinheiro. Estas últimas, para os povos indígenas do norte, são árvores da vida, um nome que se relacionava com sua grande altura. Portanto, o local onde o cogumelo crescia era um local de valor particular.
A toxicidade do Amanita quando ingerido é alta, então antes de tomá-lo eles tinham que desidratá-lo nos galhos dos pinheiros. Uma segunda possibilidade era colocá-la em meias e espalhá-lo sobre o fogo, uma imagem que lembra muito a tradição natalina de pendurar meias de Natal sobre chaminés.
Além disso, as renas foram de grande ajuda para reduzir a toxicidade do cogumelo, já que podem comer Amanita sem sofrer os efeitos psicodélicos. Assim, a urina dos animais era utilizada, já que eles já tinham filtrado os componentes nocivos do cogumelo, mas que ainda mantinham seus efeitos alucinógenos.
Após o xamã ingerir os cogumelos ou beber a urina da rena, as alucinações e reações do amanita começavam, como sentimentos de alegria, vontade de cantar ou aumento do tônus muscular, tornando qualquer esforço físico mais fácil de ser realizado.
descobriu-se que a cerimônia do solstício de inverno dos povos indígenas do Polo Norte, centenas de anos atrás, especialmente os Koryaks da Sibéria e os Kamchadales, tinha tradições semelhantes às da véspera de Natal do século passado.
Nas comunidades ancestrais do Ártico, o solstício de inverno, que ocorre em 21 de dezembro, era uma data cerimonial e festiva. Eram realizados rituais guiados por xamãs que coletavam o cogumelo Amanita muscaria que tem poderosas propriedades psicodélicas.
A lenda diz que, durante suas viagens, os xamãs conseguiam ver o futuro da comunidade, podiam se transformar em animais e voar em direção à Estrela Polar em busca de conhecimento para compartilhar com o resto do povo. Ao final de sua experiência alucinógena, eles retornavam ao grupo em sua yurt (o tipo de moradia típica dos habitantes daquela região naquela época) e se reuniam com os homens importantes do povoado para começar a cerimônia do solstício, além de compartilhar suas visões com a comunidade.
Acredita-se que as jornadas psicotrópicas dos xamãs estejam relacionadas à ideia de que o Papai Noel viaja com seu trenó e renas pelos céus para entregar presentes. O presente dado pelos xamãs era o conhecimento que o cogumelo lhes dava, além de compartilhar porções dele entre os presentes.
Outra semelhança com o imaginário natalino é que a entrada para as yurts era um buraco no teto, porque a porta principal estava coberta de neve. Assim, o xamã fazia sua aparição descendo da parte mais alta da casa, semelhante ao Papai Noel descendo pela chaminé.
A vestimenta é outra semelhança, já que para homenagear o cogumelo Amanita os xamãs se vestiam com roupas vermelhas e brancas, e para se proteger da neve usavam grandes botas de couro de rena que com o tempo ficavam pretas.
A expansão do Papai Noel
Com o tempo esse arquétipo xamânico mudou e diz-se que com as viagens dos druidas essa tradição se espalhou para a Grã-Bretanha. Depois, por meio do intercâmbio cultural, foi combinada com mitos germânicos e nórdicos que relatavam aventuras como as de Wotan (deus germânico), Odin (seu equivalente nórdico) e outros deuses, que ao viajarem durante a noite do solstício de inverno, eram perseguidos por demônios em um trenó puxado por um cavalo de oito patas. Dizia-se que um rastro de sangue vermelho e branco caía do trenó e que os cavalos soltavam uma espuma branca até o chão, onde os cogumelos amanita apareceriam no ano seguinte.
Com o tempo, o cristianismo relacionou a tradição do Natal ao bispo turco do século IV, São Nicolau de Bari, que também inspirou o personagem do Papai Noel, já que costumava dar presentes aos necessitados e especialmente às crianças.
“Um Papai Noel alegre, brincalhão e ao mesmo tempo realista” foi a encomenda que a Coca-Cola deu ao ilustrador Haddon Sundblom, em 1931. Daí a imagem atual do Papai Noel.
Assim, mesmo que desconhecido por muitos, o poder do cogumelo Amanita muscaria marcou a história do Natal até hoje. Os ritos nas datas próximas ao solstício de dezembro são preservados até os dias atuais, com claras modificações, mas os cogumelos continuam presentes através de decorações e desenhos natalinos que nos conectam com centenas de anos de tradição.
Referência de texto: Fungi Fundation
por DaBoa Brasil | nov 29, 2025 | Curiosidades, Psicodélicos
É comum ouvir histórias sobre o consumo coletivo de cogumelos, ayahuasca, LSD ou outros psicodélicos, em que aqueles que os consumiram afirmam ter visto imagens muito semelhantes, recebido mensagens parecidas ou sentido que, de alguma forma, compartilharam a “viagem”.
Aqueles que falam de uma “viagem compartilhada” frequentemente se referem a coincidências que parecem ir além do acaso, pois visões com símbolos quase idênticos se repetem, mensagens ecoam ou sonhos se entrelaçam tanto dentro quanto fora da cerimônia. De uma perspectiva psicológica, a primeira chave reside na sugestibilidade e nas expectativas compartilhadas. As pessoas chegam com objetivos comuns — curar, conectar-se, “abrir seus corações” — e, posteriormente, a memória tende a reter coincidências marcantes e apagar diferenças, reforçando a sensação de ter feito parte da mesma narrativa.
Em um artigo publicado no site especializado DoubleBlind, o autor revisita conceitos como a sincronicidade de Jung — coincidências significativas — e a sensação de vivenciar algo em estado de vigília que já se sonhou. Sob a influência de psicodélicos, nossa relação com o tempo, e consequentemente com as memórias, a imaginação e a percepção, torna-se mais permeável. Basta que alguém compartilhe um tema sensível — uma dor, um medo, um relacionamento — para que outras mentes sugestionáveis comecem a sonhar com esse material. Posteriormente, essas ressonâncias são lembradas como se todos tivessem visitado exatamente o mesmo território interior.
A neurociência demonstrou que compostos como a psilocibina e o LSD atuam nos receptores de serotonina 2A, alterando modelos preditivos do cérebro e aumentando a comunicação entre regiões que normalmente operam de forma mais independente. Esse “cérebro mais entrópico” está associado a uma dissolução parcial do eu e a uma maior consciência dos relacionamentos.
Entretanto, estudos com pessoas que meditam, cantam ou dançam juntas mostram que elas tendem a sincronizar a respiração e os batimentos cardíacos mesmo sem o uso de substâncias. Essas sincronizações são, por vezes, interpretadas como evidência de consciência compartilhada, embora as evidências disponíveis não sustentem a existência de telepatia em sentido estrito.
Portanto, em vez de questionar se todos compartilham literalmente a mesma viagem, vale a pena analisar o que essas experiências revelam sobre nossa necessidade de conexão e cuidado mútuo em contextos marcados pela proibição e por políticas que criminalizam o uso de drogas.
Referência de texto: Cáñamo
por DaBoa Brasil | nov 27, 2025 | Psicodélicos, Saúde
Um estudo clínico aberto da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, observou que um regime de microdoses de LSD, administrado duas vezes por semana durante oito semanas, está associado a uma redução de quase 60% nos sintomas em pessoas com depressão maior moderada, bem como a melhorias na ansiedade e na qualidade de vida.
O ensaio clínico, publicado na revista Neuropharmacology, incluiu 19 adultos diagnosticados com transtorno depressivo maior; a maioria era do sexo masculino e quase todos estavam tomando um antidepressivo no início do estudo. Durante oito semanas, eles receberam 16 doses sublinguais de LSD, começando com 8 microgramas na clínica e continuando em casa com doses entre 6 e 20 microgramas duas vezes por semana. A equipe avaliou a tolerabilidade, a frequência às consultas e os parâmetros de segurança, incluindo exames de sangue, eletrocardiogramas e ecocardiogramas.
Segundo os autores, os sintomas depressivos, medidos pela Escala de Avaliação de Depressão de Montgomery-Åsberg (MADRS), diminuíram em aproximadamente 60% ao final do tratamento, e essa melhora foi mantida por até seis meses após o término do estudo. Também foram observadas reduções na ansiedade, no estresse e na ruminação, juntamente com aumentos nos indicadores de qualidade de vida. Não foram registrados eventos adversos graves ou alterações clinicamente relevantes nos exames cardíacos, e apenas um participante abandonou o estudo devido à ansiedade durante a administração da dose.
O desenho do estudo, sem um grupo placebo e com todos os participantes cientes de que estavam recebendo LSD, limita o alcance das conclusões, pois dificulta a separação dos efeitos da própria droga daqueles relacionados às expectativas e ao suporte estruturado fornecido por um aplicativo móvel que registrava as doses e sugeria atividades de autocuidado. Além disso, o tamanho da amostra é pequeno e pouco diversificado, portanto os resultados não podem ser generalizados para toda a população com depressão.
O estudo neozelandês não afirma que a microdosagem de LSD seja uma “cura” para a depressão, mas reforça a ideia de que ensaios clínicos regulamentados são a maneira mais sensata de explorar seu potencial terapêutico. Portanto, em vez de proibir substâncias, a questão fundamental é quais estruturas permitem que as pessoas acessem opções seguras, com suporte e baseadas em evidências.
Referência de texto: Cáñamo
por DaBoa Brasil | nov 11, 2025 | Psicodélicos, Saúde
Uma revisão publicada na revista Psychedelics analisa como o LSD, a psilocibina e o DMT alteram a percepção do tempo, modulando a rede serotoninérgica e ativando receptores. A descoberta pode ter implicações terapêuticas em condições clinicamente controladas.
O cérebro humano funciona como um relógio da experiência, e os psicodélicos parecem interferir em seu funcionamento interno. De acordo com a literatura consultada, os usuários de psicodélicos descrevem três padrões de alteração do tempo: dilatação (a sensação de que os minutos estão se alongando), compressão (perda da percepção da passagem do tempo) e atemporalidade (dissolução da sequência passado-presente-futuro). As experiências variam dependendo da substância; enquanto o LSD tende a induzir uma clara extensão subjetiva do tempo, a psilocibina está mais associada a experiências de atemporalidade.
De uma perspectiva neurocientífica, a revisão — de autoria de Pu Jiang, Cong Lin e Xiaohui Wang, da Academia Chinesa de Ciências (Instituto de Química Aplicada de Changchun), da Universidade de Ciência e Tecnologia da China e da Universidade de Zhejiang — situa esses efeitos em circuitos bem estabelecidos, sendo os sistemas dopaminérgico e glutamatérgico aparentemente fundamentais.
No contexto clínico, os autores da revisão sugerem uma hipótese: se os psicodélicos interrompem padrões temporais rígidos, podem abrir a possibilidade de reprocessar memórias traumáticas ou ruminações ansiosas que mantêm as pessoas presas ao passado ou antecipando um futuro temido. Alguns estudos de psicoterapia assistida com psicodélicos descrevem experiências em que as memórias parecem menos carregadas emocionalmente e fora de uma cronologia fixa, o que poderia facilitar sua reinterpretação.
O artigo enfatiza que esses usos devem ser enquadrados em contextos regulamentados, com orientação profissional e consentimento informado. Muitas dessas substâncias permanecem restritas pela proibição, o que dificulta o desenvolvimento de pesquisas formais. Os autores defendem uma regulamentação baseada em evidências, com protocolos de segurança claros, treinamento clínico e padrões de qualidade.
A percepção do tempo é um componente fundamental da saúde mental, e sua alteração controlada poderia ter valor terapêutico. No entanto, enquanto as estruturas legais mantiverem a pesquisa em suspenso, o conhecimento permanecerá suspenso. A ciência não está mais questionando se os psicodélicos param o tempo, mas sim se a proibição continuará a paralisar a ciência.
Referência de texto: Cáñamo
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