Um novo estudo publicado pelo The Journal of Sex Research relata que jovens adultos que fazem sexo sob o efeito da maconha frequentemente a descrevem como uma ferramenta para aumentar o prazer e a conexão, além de aliviar a ansiedade e a timidez.

Pesquisadores da Université du Québec à Montréal e da Université de Montréal (Canadá) entrevistaram 27 participantes com idades entre 18 e 24 anos em Quebec, explorando os motivos pelos quais usam maconha em contextos sexuais e como o gênero influencia essas motivações. O estudo baseou-se em entrevistas semiestruturadas e análise temática, com os resultados interpretados utilizando o Quadro de Estrutura de Gênero, que trata o gênero como uma estrutura social que opera em níveis individuais, interacionais e culturais mais amplos.

Os pesquisadores agruparam as motivações em três categorias: sexualidade transformada, sexo facilitado e influências contextuais. Nessas categorias, os participantes descreveram a maconha como algo que muda a forma como o sexo é percebido física e emocionalmente, altera a maneira como lidam com o estresse e a insegurança e, para usuários frequentes, se entrelaça com o sexo de maneiras nem sempre planejadas ou intencionais.

Na primeira categoria — sexualidade transformada — os participantes frequentemente descreveram sensações intensificadas, maior intimidade e uma percepção mais ampla das possibilidades sexuais. Muitos disseram que a maconha tornava o toque mais intenso, os ajudava a se manterem presentes no momento e contribuía para um sexo que parecia mais longo ou mais satisfatório. Alguns participantes também descreveram maior excitação e uma maior capacidade de atingir o orgasmo, enquanto outros disseram que a mudança mais significativa foi emocional: sentir-se mais conectado, mais “em sintonia” ou mais aberto a experimentar coisas novas com o parceiro.

As entrevistas do estudo sugerem que essas experiências não foram distribuídas igualmente entre os gêneros. Os pesquisadores relataram que mulheres cis e participantes com identidades de gênero diversas descreveram com mais frequência uma amplificação sensorial — sensação de tato, som e conforto corporal “aumentada”. Homens cis descreveram com mais frequência motivações ligadas à confiança e ao desempenho, incluindo sentir-se mais energéticos, mais capazes ou mais dispostos a tomar a iniciativa.

Homens trans na amostra se destacaram nas discussões sobre desejo e excitação. Alguns descreveram a maconha como algo que torna a excitação mais imediata ou confiável, apresentando-a como uma forma de acessar a libido que, de outra forma, parecia reprimida ou difícil de alcançar. O estudo relaciona essas experiências às expectativas de gênero sobre sexualidade — ideias sobre o que significa estar “pronto”, “normal” ou “bem-sucedido” durante o sexo.

A segunda categoria — sexo facilitado — focou menos em intensificar o prazer e mais em reduzir as barreiras a ele. Os participantes descreveram a maconha como um alívio para a ansiedade, ajudando-os a relaxar e a acalmar pensamentos intrusivos que podem atrapalhar o sexo. Para alguns, tratava-se de acalmar o estresse diário e o “ruído” mental, incluindo preocupações com estudos, o trabalho ou conflitos interpessoais. Para outros, tratava-se de lidar com um sofrimento mais profundo relacionado a experiências negativas do passado, incluindo traumas.

Esse tema foi especialmente marcante entre as mulheres cisgênero nas entrevistas, que frequentemente descreveram a maconha como uma ajuda para “se soltar”, parar de pensar demais e estar mais presentes durante o sexo. O estudo relaciona esse padrão às pressões de “carga mental” de gênero — expectativas de que as mulheres carreguem responsabilidades emocionais e relacionais que podem se estender à intimidade, deixando menos espaço para relaxamento e autoconsciência.

A imagem corporal e as expectativas em relação à aparência também emergiram como uma motivação recorrente, especialmente entre mulheres cis e homens trans. Alguns participantes descreveram a maconha como redutora da autoconsciência em relação a defeitos físicos percebidos, diminuindo a preocupação com a aparência em determinadas posições ou aliviando o desconforto durante práticas consideradas particularmente reveladoras. Os pesquisadores interpretam esses relatos sob a ótica das normas de gênero e dos padrões de beleza que podem levar as mulheres a encarar o sexo como uma performance centrada em ter uma determinada aparência e agradar o parceiro.

Para os participantes transgêneros, o tema “sexo facilitado” também incluiu o papel da maconha no alívio da disforia de gênero durante a atividade sexual. Alguns descreveram a maconha como redutora do sofrimento relacionado a partes do corpo que parecem incongruentes com a identidade de gênero, facilitando a conexão com as sensações em vez de mergulhar em uma automonitorização disfórica. Em alguns relatos, os participantes disseram que a maconha ajudou na visualização e no conforto, permitindo que vivenciassem o sexo com menos atrito cognitivo em relação à linguagem de gênero ou ao foco corporal.

A terceira categoria, influências contextuais, capturou um tipo diferente de motivação: às vezes não há motivação clara alguma. Muitos participantes disseram que o sexo sob o efeito da erva acontecia porque o uso de maconha já fazia parte de suas noites, ambientes sociais ou vida cotidiana. Nesses relatos, sexo e maconha se sobrepunham incidentalmente, e não por meio de um plano consciente para intensificar o sexo.

Alguns participantes descreveram um processo de “condicionamento” ao longo do tempo, no qual experiências positivas de sexo sob o efeito da maconha fortaleceram a associação entre o uso da substância e a excitação. Outros enfatizaram a importância da rotina: se a maconha faz parte de uma rotina noturna para relaxar, o sexo pode ocorrer no mesmo período sem que ninguém tome a decisão intencional de combinar os dois. Os participantes também mencionaram contextos sociais como festas ou ambientes compartilhados por amigos, onde o uso de maconha pode ser normalizado e compartilhado com parceiros, moldando a atmosfera em que a intimidade acontece.

De modo geral, o estudo argumenta que as conversas sobre maconha e sexo frequentemente se concentram apenas nos riscos, ignorando os motivos pelos quais jovens adultos podem usá-la intencionalmente: prazer, intimidade, relaxamento, exploração e alívio de fatores estressantes que, de outra forma, bloqueiam o bem-estar sexual. Ao mesmo tempo, as entrevistas mostram que as motivações são moldadas por expectativas de gênero — sobre desempenho, beleza, disponibilidade e o trabalho emocional da intimidade — e que essas pressões podem influenciar tanto usos positivos quanto negativos.

O estudo conclui afirmando:

Em conclusão, este estudo permite examinar a relação entre o uso de cannabis e a busca por prazer em contextos sexuais, bem como a influência das normas sociais e de gênero nesses comportamentos. Ele propõe uma mudança de paradigma: encarar o uso indevido de cannabis não apenas como um risco a ser gerenciado, mas também como um espaço potencial para o bem-estar, desde que os indivíduos recebam apoio compassivo e informado. Ao colocar o prazer, a autonomia e o gênero no centro da compreensão do uso indevido de cannabis, esta pesquisa desafia as narrativas dominantes e amplia o debate nos campos da saúde sexual e do uso de substâncias. Em última análise, ela incentiva uma reformulação das práticas clínicas, educacionais e preventivas com perspectiva de gênero, fundamentada nas realidades vividas, nas necessidades e nas motivações de jovens adultos, ao mesmo tempo que questiona as normas sociais, o estigma e as condições estruturais mais amplas que moldam essas experiências.

Referência de texto: The Marijuana Herald

Pin It on Pinterest

Shares