De acordo com um estudo publicado na revista Addiction, o consumo crônico de álcool altera profundamente a expressão de genes no sistema endocanabinoide em regiões-chave do cérebro, afetando áreas envolvidas na recompensa, no controle de impulsos e na tomada de decisões.
Nesse contexto, o estudo, feito por pesquisadores na Espanha, focou na análise dos mecanismos neurobiológicos associados ao transtorno por uso de álcool, examinando tecido cerebral post-mortem de indivíduos que consumiram álcool cronicamente por uma média de 35 anos. Especificamente, os pesquisadores investigaram alterações no sistema endocanabinoide, que está intimamente ligado aos mecanismos de recompensa e dependência.
Ao comparar amostras de indivíduos com transtorno por uso de álcool com amostras de indivíduos não dependentes, a equipe observou um desequilíbrio acentuado na expressão de vários genes do sistema endocanabinoide. Em particular, detectaram um forte aumento no receptor CB1: a expressão do gene que codifica esse receptor aumentou 125% no córtex pré-frontal e 78% no núcleo accumbens. “Esse receptor está intimamente envolvido no reforço de comportamentos aditivos e no risco de recaída”, observa a pesquisadora María Salud García Gutiérrez, primeira autora do estudo.
Em contrapartida, a expressão do gene do receptor CB2 foi reduzida em aproximadamente 50% em ambas as regiões. “Como o receptor CB2 desempenha funções neuroprotetoras e anti-inflamatórias, sua redução sugere um comprometimento dos mecanismos de defesa do cérebro contra danos induzidos pelo álcool”, explica o pesquisador.
Outra descoberta surpreendente foi a alteração do receptor GPR55, conhecido como receptor “órfão” porque, durante anos, seu ligante natural era desconhecido. Os pesquisadores encontraram níveis mais elevados de GPR55 no córtex pré-frontal, com um aumento de 19%, mas níveis significativamente mais baixos no núcleo accumbens, com uma redução de 51%. Este estudo é o primeiro a documentar alterações nesse gene em humanos com transtorno por uso de álcool.
Além disso, a equipe observou alterações na enzima FAAH, responsável pela degradação da anandamida, um endocanabinoide produzido pelo sistema nervoso que influencia a ansiedade e o prazer. Em indivíduos com alcoolismo, a expressão do gene FAAH foi menor no córtex pré-frontal, mas 24% maior no núcleo accumbens, o que pode alterar a disponibilidade dessas substâncias reguladoras.
Segundo os autores, essas descobertas ajudam a compreender melhor por que o cérebro de pessoas com transtorno por uso de álcool apresenta maior vulnerabilidade à recaída e menor controle executivo. Identificar quais componentes do sistema endocanabinoide estão alterados e em quais regiões do cérebro abre caminho para novas abordagens terapêuticas mais específicas e personalizadas.
Referência de texto: Wiley – Online Library
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