por DaBoa Brasil | jan 29, 2026 | Ciências e tecnologia, Saúde
Um novo estudo publicado na revista Cell Death & Disease oferece uma nova perspectiva sobre como o sistema endocanabinoide pode influenciar a fertilidade masculina, identificando um papel até então pouco reconhecido do receptor canabinoide CB1 na remodelação da cromatina dos espermatozoides humanos. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Università Politecnica delle Marche, da Universidad de León, da Universidade de Macerata e de instituições colaboradoras na Itália e na Espanha.
Utilizando microscopia confocal avançada e Airyscan, pesquisadores mapearam a distribuição precisa do receptor CB1 em espermatozoides humanos, resolvendo inconsistências deixadas por técnicas de imagem anteriores. O receptor foi observado em um padrão pontilhado ao longo da cauda do espermatozoide, em peças intermediárias selecionadas e em regiões discretas da cabeça. Análises comparativas entre espécies mostraram que, embora o CB1 esteja presente na cauda do espermatozoide tanto de invertebrados quanto de vertebrados, sua presença na cabeça do espermatozoide é restrita a galos e mamíferos.
Em mamíferos, o estudo identificou uma população de receptores CB1 localizados dentro do espermatozoide, abaixo das membranas plasmática e acrossômica externa, estendendo-se em direção ao núcleo. Notavelmente, esse sinal intracelular permaneceu mesmo após a reação acrossômica, sugerindo que o CB1 pode ter funções além da motilidade e dos mecanismos de fertilização.
Com base em pesquisas anteriores com animais, a equipe examinou se o receptor CB1 influencia a estrutura da cromatina no esperma humano. A ativação do CB1 com um agonista seletivo (algo que ocorre naturalmente por meio da cannabis) aumentou a acetilação da histona H4, restaurando os níveis normais em amostras de homens com astenozoospermia. Embora outro endocanabinoide tenha reduzido a fragmentação do DNA, a ativação do CB1 em si não o fez, indicando vias regulatórias distintas.
Em conjunto, as descobertas apontam para um papel conservado do CB1 na dinâmica da cromatina durante o desenvolvimento dos espermatozoides, oferecendo novas perspectivas sobre os processos moleculares subjacentes à saúde reprodutiva masculina.
Referência de texto: The Marijuana Herald
por DaBoa Brasil | jan 27, 2026 | Saúde
Uma nova pesquisa publicada no Journal of Cannabis Research e conduzida por cientistas da Universidade de Rhode Island (EUA) identificou um canabinoide pouco conhecido, o ácido canabigerorcínico (CBGOA), como um potencial composto neuroprotetor no contexto de acidente vascular cerebral (AVC).
O AVC continua sendo uma das principais causas de morte e incapacidade a longo prazo em todo o mundo, com poucas opções de tratamento disponíveis para limitar ou prevenir a morte de células cerebrais após a restauração do fluxo sanguíneo. Pesquisadores observaram que os canabinoides são conhecidos por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, além de seus efeitos nas vias de sinalização celular, mas seu papel na lesão cerebral relacionada ao AVC tem recebido muito menos atenção do que seu uso em condições como epilepsia ou doenças neurodegenerativas.
Para explorar essa lacuna, a equipe de pesquisa utilizou neurônios corticais derivados de células-tronco pluripotentes induzidas humanas para simular um acidente vascular cerebral (AVC) em laboratório. Essas células cerebrais humanas cultivadas em laboratório foram expostas a 60 minutos de privação de oxigênio e glicose, seguidos de reperfusão, mimetizando o que ocorre no cérebro durante e após um AVC isquêmico. A sobrevivência neuronal foi então monitorada por sete dias utilizando imagens de células vivas.
A equipe analisou 28 fitocanabinoides diferentes para verificar se algum deles poderia reduzir a morte celular após esse acidente vascular cerebral simulado. Embora sete canabinoides tenham apresentado benefícios modestos, o CBGOA se destacou por melhorar significativamente a sobrevivência neuronal após o evento de privação de oxigênio e glicose.
Curiosamente, os pesquisadores descobriram que, embora a simulação de AVC tenha desencadeado um aumento na morte celular por meio da ativação da caspase-3, uma via fundamental associada à morte celular programada, o CBGOA não pareceu afetar essa via. Isso sugere que o composto pode estar atuando por meio de mecanismos alternativos, independentes da caspase, para proteger os neurônios.
Os pesquisadores alertaram que os efeitos observados foram modestos e que o estudo foi conduzido inteiramente in vitro, ou seja, em um modelo celular de laboratório, e não em animais ou humanos vivos. No entanto, o uso de neurônios derivados de células-tronco humanas confere relevância translacional e fornece uma base inicial para estudos futuros.
O estudo conclui que o CBGOA justifica uma investigação mais aprofundada como um potencial agente neuroprotetor em casos de AVC, particularmente através de pesquisas in vivo destinadas a compreender melhor como ele pode proteger o tecido cerebral após uma lesão isquêmica.
Referência de texto: The Marijuana Herald
por DaBoa Brasil | jan 26, 2026 | Política, Redução de Danos, Saúde
Um estudo publicado na revista Drug and Alcohol Dependence por pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, da Universidade Emory, da Universidade Johns Hopkins e da Universidade Estadual da Flórida descobriu que os estados dos EUA com leis que legalizam tanto o uso adulto quanto o uso medicinal da maconha apresentaram reduções mensuráveis no uso indevido diário de opioides entre pessoas que injetam drogas (PWID, na sigla em inglês), uma população no centro da crise de overdose do país.
O estudo analisou dados de 28.069 usuários de drogas injetáveis em 13 estados, utilizando quatro ondas de pesquisas nacionais de vigilância comportamental do HIV realizadas pelo CDC entre 2012 e 2022. Os pesquisadores utilizaram um modelo de diferenças em diferenças escalonadas para comparar os estados que haviam legalizado a maconha apenas para uso medicinal com aqueles que posteriormente legalizaram também o uso adulto.
Eles descobriram que a transição de leis que permitiam apenas o uso medicinal da maconha para estados que permitiam tanto o uso medicinal quanto o uso adulto estava associada a uma redução de 9% a 11% na probabilidade de uso diário de opioides para fins não medicinais. A redução foi ainda mais acentuada quando se analisou especificamente os opioides injetáveis, onde a probabilidade caiu entre 2% e 19%, dependendo do modelo utilizado.
Em contrapartida, os estados que adotaram apenas leis sobre maconha para uso medicinal não apresentaram a mesma redução.
Os pesquisadores também examinaram como a legalização influenciou o uso diário de maconha entre usuários de drogas injetáveis. Embora nenhum aumento geral tenha sido observado em toda a amostra, o uso diário de maconha aumentou entre os participantes brancos não hispânicos em estados que passaram da proibição para a legalização do uso medicinal, passando de aproximadamente 15% para 20%.
Os autores observam que pessoas que usam opioides frequentemente relatam recorrer à maconha para controlar os sintomas de abstinência, reduzir a fissura e apoiar os esforços de recuperação. Pesquisas anteriores citadas no artigo associaram o uso frequente de maconha entre usuários de drogas injetáveis com menor frequência de injeção de opioides e com maior adesão a programas de tratamento para dependência de opioides, ambos fatores relacionados a um menor risco de overdose.
O estudo também destaca as disparidades raciais em como a legalização pode afetar os padrões de uso de substâncias. Embora o uso de maconha tenha aumentado entre os participantes brancos não hispânicos após a legalização, o mesmo padrão não foi observado entre os participantes negros, o que levanta questões sobre se as desigualdades estruturais influenciam quem se beneficia da reforma da legislação sobre a maconha.
A amostra do estudo era economicamente vulnerável, com 78% vivendo na linha da pobreza ou abaixo dela, segundo o governo estadunidense, e 64% tendo vivenciado a situação de sem-teto no ano anterior. 41% dos participantes eram negros, 39% eram brancos e 19% eram hispânicos ou latinos.
Os pesquisadores enfatizam que a maioria dos estudos anteriores que examinaram as políticas sobre maconha e o uso de opioides se concentrou na população em geral, e não em pessoas que injetam drogas. Esta análise, segundo eles, ajuda a preencher essa lacuna ao examinar o grupo mais diretamente afetado pelo risco de overdose.
Embora os autores alertem que o estudo é observacional e não pode comprovar causalidade, eles concluem que uma legalização mais ampla da maconha pode estar associada a reduções significativas no uso indevido diário de opioides entre usuários de drogas injetáveis e poderia desempenhar um papel na redução dos danos relacionados às drogas, se combinada com acesso equitativo e políticas de saúde pública de apoio.
Referência de texto: The Marijuana Herald
por DaBoa Brasil | jan 25, 2026 | Saúde
Uma nova revisão científica publicada na revista Pathophysiology examina como os canabinoides — tanto os produzidos naturalmente pelo corpo quanto os derivados da planta da maconha — interagem com os canais iônicos e as vias de sinalização envolvidas em doenças hepáticas e carcinoma hepatocelular, a forma mais comum de câncer de fígado.
A revisão foi conduzida por pesquisadores de diversas instituições mexicanas, incluindo o Centro de Pesquisa e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional da Cidade do México e o Instituto Nacional de Medicina Genômica. Em conjunto, os autores avaliaram as evidências experimentais existentes sobre o sistema endocanabinoide, os fitocanabinoides como o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), e sua potencial relevância para a prevenção e o tratamento do câncer de fígado.
O carcinoma hepatocelular é descrito pelos pesquisadores como “o principal tipo de câncer de fígado e uma das neoplasias malignas com as maiores taxas de mortalidade em todo o mundo”. Eles observam que o CHC está intimamente ligado a danos hepáticos crônicos causados pelo consumo de álcool, hepatite viral, esteatose hepática e cirrose, com muitos pacientes sendo diagnosticados somente quando a doença já atingiu um estágio avançado. Como escrevem os autores, “marcadores precoces de CHC e novas abordagens terapêuticas são urgentemente necessários”.
A revisão concentra-se no sistema endocanabinoide, que desempenha um papel em inúmeras funções biológicas, incluindo a regulação imunológica, a inflamação, a sobrevivência celular e a morte celular programada. De acordo com o artigo, os endocanabinoides e os fitocanabinoides podem influenciar as vias de sinalização envolvidas na “sobrevivência celular, proliferação, apoptose, autofagia e resposta imune”, processos todos implicados no desenvolvimento e progressão do câncer.
Embora os receptores canabinoides, como CB1 e CB2, tenham sido amplamente estudados, os autores enfatizam que os canabinoides também interagem com alvos não canônicos, incluindo diversos canais iônicos. Esses canais iônicos estão envolvidos na inflamação, no crescimento celular anormal e na morte celular em doenças hepáticas, incluindo o carcinoma hepatocelular. A revisão destaca o CBD em particular, observando sua interação com canais iônicos que podem influenciar a progressão da doença sem produzir efeitos intoxicantes.
“Nesta revisão da literatura, descrevemos e discutimos tanto o sistema endocanabinoide quanto os fitocanabinoides exógenos, como o canabidiol e o Δ9-tetrahidrocanabinol, juntamente com seus receptores canônicos”, afirmam os autores, examinando também “os canais iônicos alvo do canabidiol e seu papel no câncer de fígado e nas doenças hepáticas que o precedem”.
Os pesquisadores concluem que a interação entre os canabinoides e os canais iônicos representa “uma oportunidade extraordinária na prevenção e no tratamento do câncer de fígado”. Eles sugerem que novas investigações podem ter implicações não apenas para o tratamento clínico, mas também para considerações mais amplas de saúde pública, econômicas e socioculturais que afetam pacientes com câncer.
Embora o artigo não apresente novos dados de ensaios clínicos, ele contribui para um crescente corpo de literatura que explora como os canabinoides podem influenciar as vias biológicas relacionadas ao câncer, particularmente em doenças com opções de tratamento limitadas e altas taxas de mortalidade, como o carcinoma hepatocelular.
Referência de texto: The Marijuana Herald
por DaBoa Brasil | jan 23, 2026 | Saúde
Um novo estudo publicado no International Dental Journal descobriu que o tetrahidrocanabinol (THC), o principal componente da maconha, inibe significativamente o crescimento e a atividade do Streptococcus mutans, a bactéria mais associada às cáries dentárias.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Detroit Mercy (EUA) e da Universidade Médica de Hebei (China), que examinaram como o THC afeta tanto as células de S. mutans livres quanto os biofilmes complexos que as bactérias formam na superfície dos dentes. Os biofilmes permitem que as bactérias se fixem ao esmalte, produzam ácidos e resistam a agentes antimicrobianos, tornando-se um fator importante na cárie dentária.
Utilizando testes de suscetibilidade antimicrobiana, pesquisadores determinaram que o THC, em concentrações de 2 microgramas por mililitro, foi capaz de inibir mais de 90% do crescimento de S. mutans. Mesmo em concentrações mais baixas, o THC reduziu a capacidade da bactéria de produzir ácido, um fator crítico na desmineralização do esmalte. Em amostras não tratadas, o pH da cultura caiu para 4,5 em duas horas, enquanto as amostras expostas ao THC apresentaram uma queda mais lenta na acidez, retardando o início típico do dano ao esmalte.
O estudo também descobriu que o THC inibiu fortemente a formação de novos biofilmes. Concentrações tão baixas quanto 1 micrograma por mililitro reduziram a formação de biofilme em quase 88%, enquanto 2 microgramas por mililitro inibiram em mais de 90%. Testes de imagem e fluorescência mostraram que o THC reduziu tanto o número de bactérias viáveis quanto a quantidade de polissacarídeo extracelular (EPS), a substância pegajosa que permite que o S. mutans adira às superfícies dos dentes e forme colônias densas.
Embora o THC não tenha desfeito fisicamente os biofilmes já formados, reduziu significativamente sua atividade metabólica e viabilidade. Em concentrações mais elevadas, os pesquisadores observaram que o THC limitou o crescimento bacteriano dentro de biofilmes maduros por até seis horas, sugerindo um efeito bacteriostático em vez de uma eliminação bacteriana direta.
Testes adicionais revelaram um mecanismo provável para esses efeitos. Foi demonstrado que o THC causa hiperpolarização rápida da membrana bacteriana poucos minutos após a exposição. Os pesquisadores observam que as alterações no potencial de membrana estão intimamente ligadas ao metabolismo bacteriano, à produção de energia e à sobrevivência, indicando que o THC interfere em processos celulares essenciais.
Os autores concluem que o THC pode reduzir a capacidade cariogênica do S. mutans, limitando seu crescimento, produção de ácido e capacidade de formar biofilmes protetores. No entanto, alertam que as conclusões provêm de um estudo in vitro e que os conhecidos efeitos psicoativos e sistêmicos do THC limitam seu uso prático como tratamento odontológico. Em vez disso, as descobertas podem auxiliar no desenvolvimento de compostos à base de canabinoides mais seguros, que atuem contra bactérias orais sem propriedades psicoativas.
Segundo os pesquisadores, este trabalho fornece evidências científicas iniciais de que os canabinoides podem influenciar a saúde bucal de maneiras até então pouco compreendidas e podem abrir novos caminhos para o desenvolvimento de terapias anticárie baseadas na química dos canabinoides.
Referência de texto: The Marijuana Herald
por DaBoa Brasil | jan 22, 2026 | Saúde
O uso de maconha (óleo e flores in natura) é seguro e clinicamente eficaz em adolescentes que sofrem de síndrome de Tourette (ST), de acordo com as conclusões de dois estudos de caso publicados na revista Frontiers in Psychiatry.
Pesquisadores em Hanôver, Alemanha, relataram o uso prolongado de maconha em dois adolescentes do sexo masculino com síndrome de Tourette. Ambos os indivíduos utilizaram formulações da planta (extratos ou flores vaporizadas) diariamente durante vários anos.
Os investigadores relataram: “O tratamento a longo prazo com diferentes canabinoides contendo THC resultou não só numa melhoria constante dos tiques, das comorbidades psiquiátricas e da qualidade de vida, como também não causou efeitos adversos graves e, em particular, nenhum sintoma psicológico como ansiedade, psicose e abuso de substâncias, incluindo o transtorno por uso de cannabis. Mais importante ainda, os resultados dos testes neurocognitivos durante o curso da terapia não mostraram qualquer evidência de que as capacidades cognitivas dos pacientes tivessem ficado abaixo da média. Também não houve indicação de anomalias comportamentais, problemas sociais, negligência dos interesses sociais ou perda de interesse, motivação e iniciativa. Isto é notável, uma vez que, em ambos os pacientes, o tratamento com cannabis foi iniciado antes da puberdade e as doses de THC eram relativamente elevadas”.
“Em ambos os pacientes, o tratamento com cannabis resultou em benefício contínuo, com melhora significativa dos tiques e comorbidades psiquiátricas, sem efeitos adversos graves. (…) Embora a generalização dos nossos relatos de caso de dois pacientes seja limitada, sugerimos que [os profissionais de saúde] considerem o tratamento com THC em crianças e adolescentes gravemente afetados e refratários a outros tratamentos, antes de cogitar o tratamento cirúrgico com estimulação cerebral profunda”, concluíram os autores do estudo.
Dados de ensaios clínicos controlados por placebo demonstram que extratos de canabinoides reduzem a frequência e a gravidade dos tiques na Síndrome de Tourette, enquanto estudos observacionais mostraram benefícios a longo prazo em pacientes com Síndrome de Tourette que inalam a flor de maconha.
Referência de texto: NORML
Comentários