Pesquisadores conduziram o primeiro estudo abrangente, guiado por sensorial, dos compostos olfativos presentes nas flores secas de maconha, revelando dezenas de substâncias químicas até então desconhecidas que moldam a fragrância distinta da planta. As descobertas expandem o conhecimento científico sobre a maconha para além do conhecimento comum sobre terpenos, THC e CBD.
Para desvendar a química do olfato, os pesquisadores utilizaram uma técnica sensorial guiada, mais familiar na ciência dos alimentos do que na pesquisa sobre cannabis. Utilizando um dispositivo de cromatografia gasosa-olfatometria, juntamente com a análise de diluição do extrato aromático, eles catalogaram os compostos voláteis da maconha e, principalmente, exploraram quais deles realmente afetam o olfato.
“Por meio dessa metodologia, foi comprovado que apenas uma pequena fração dos voláteis contribui para a percepção geral do aroma”, escreveram os pesquisadores.
O método funcionou diluindo a mistura de compostos voláteis e solicitando a avaliadores treinados que atribuíssem a cada composto um “fator de diluição de sabor” que refletisse sua potência. Ao combinar a análise química com testes sensoriais em humanos, os pesquisadores identificaram 52 compostos odoríferos ativos, incluindo terpenos, ésteres, moléculas de enxofre, compostos fenólicos, ácidos voláteis e furanonas.
Notavelmente, 38 desses odorantes nunca haviam sido relatados em flores secas de maconha, e seis não haviam sido detectados em nenhum material de cannabis até agora.
“A presença desses novos componentes ativos em odores reforça ainda mais a ideia de que certos odorantes podem ser formados ou liberados durante a secagem e a cura”, escreveram. “Pesquisas futuras são necessárias para explorar como as vias enzimáticas ou oxidativas contribuem para essas transformações”.
“O presente estudo fornece a primeira investigação abrangente guiada sensorialmente sobre a composição dos compostos odoríferos ativos de flores de cannabis secas, revelando a intrincada interação entre terpenos, ésteres, compostos de enxofre e odorantes até então pouco explorados, como compostos fenólicos, ácidos voláteis e furanonas”.
O trabalho pode abrir ainda mais as portas para o melhoramento genético de novas variedades de cannabis. Assim como a degustação de vinho ou café depende de compostos aromáticos sutis, a maconha pode ser descrita em termos sensoriais igualmente sutis.
Para o estudo, os cientistas associaram odorantes às qualidades de fragrância percebidas.
Por exemplo, eles observam que o cheiro de suor que emana da maconha é devido ao ácido butanoico, ácido hexanoico e ácido 2-metilbutanoico. O cheiro de “pipoca” está associado à 2-acetilpirazina. Para usuários que buscam um cheiro terroso, semelhante ao de pimentão, a 3-isobutil-2-metoxipirazina é o odorante que causa o aroma. O aroma doce, semelhante ao de aveia, vem do (2E,4E,6Z)-nona-2,4,6-trienal ou α-terpineol, para notas florais e cítricas.
Outras qualidades olfativas incluem frutado, semelhante ao pinho, semelhante ao terpeno, semelhante ao lúpulo, semelhante ao cogumelo, semelhante ao mofo e semelhante ao cravo, entre outras.
As descobertas reforçam um ponto-chave relevante para os profissionais e estudiosos da maconha, que a maioria já conhecia ou suspeitava há muito tempo. O aroma pode ser o indicador mais forte do apelo ao consumidor, e é por isso que os cultivadores já selecionam cultivares tanto pelo aroma quanto pelos níveis de THC ou CBD.
No passado, a pesquisa se concentrava principalmente em flores frescas de maconha ou variedades ricas em THC, deixando a cannabis seca pouco explorada. Ao adaptar ferramentas comumente usadas na ciência de alimentos que identificam quais voláteis realmente moldam a percepção do aroma, os pesquisadores do estudo atual forneceram a imagem mais clara até o momento sobre o que confere à maconha seu aroma único. Os cientistas utilizaram flores de maconha liofilizadas de seis cultivares fornecidas pela Puregene AG, na Suíça.
Os autores, afiliados à Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique (Suíça) e à Universidade Técnica de Munique (Alemanha), disseram que seu estudo “estabelece as primeiras bases para a compreensão da composição odorífera das flores secas de maconha, fornecendo uma base para validação futura por meio de estudos de quantificação e reconstituição de aromas”, métodos comuns em pesquisas de ciência de alimentos.
“Ao aprofundar o conhecimento do metabolismo secundário da cannabis, os esforços de melhoramento direcionados podem otimizar a produção de compostos odoríferos desejáveis, atendendo a diferentes preferências de mercado em alimentos, fragrâncias e produtos de consumo à base de cannabis”.
O artigo foi publicado pela American Chemical Society e aparece na edição de setembro de 2025 do Journal of Agriculture and Food Chemistry, um periódico revisado por pares.
O estudo constatou que, embora terpenos conhecidos como α-pineno, mirceno e linalol tenham desempenhado papéis importantes, a análise revelou que moléculas contendo enxofre, notórias por sua pungência, também contribuem fortemente para o aroma da maconha. Compostos como 3-metilbut-2-eno-1-tiol e 4-metil-4-sulfanilpentan-2-ona foram detectados em flores secas em alta potência pela primeira vez.
O novo artigo baseia-se em pesquisas relacionadas à padronização da identificação de variedades de maconha. Em 2022, pesquisadores descobriram que o sistema de rotulagem de variedades de maconha comumente usado pode ser altamente enganoso para os consumidores. O estudo analisou a composição química de quase 90.000 amostras de cannabis em seis estados.
Pesquisas realizadas no início deste ano sobre a genética da maconha sugeriram que os incentivos no mercado legal da maconha — como o desejo de que as plantas amadureçam mais rápido e produzam mais canabinoides para extração — podem estar levando a um declínio na biodiversidade da planta em todo o mundo.
Este artigo também se baseia em uma revisão científica de julho de 2025 no periódico Molecules que se aprofundou nos sabores e aromas da maconha, examinando como a composição genética da planta, os métodos de cultivo e o processamento pós-colheita afetam os vários compostos que dão à maconha seu paladar distinto.
Referência de texto: Marijuana Moment
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